Cotidiano Fotografia Inspirações

Mudada pela câmera

Eu nunca pensei que fosse me tornar fotógrafa. Nunca mesmo. Na verdade, quando eu era mais nova, ser fotografada era pra mim um suplício terrível, porque eu sempre fui muito tímida e pouquíssimo satisfeita com a minha aparência. Daí, enfrentar a câmera era algo que eu fazia com muito pavor, e ter equipamento fotográfico em casa então… estava fora de cogitação. Só que os anos passam e a gente aprende a enxergar as coisas de forma diferente, com aquela pitada de maturidade que vai chegando aos poucos e mudando a gente por completo.

No fim da minha adolescência, mesmo ficando ainda muito desconcertada diante da câmera, eu passei a me aceitar um pouco melhor, e como estava na época de ouro do falecido orkut, fazer algumas fotos pra não ficar barrada com a galera era mais do que necessário. Foi quando eu (e outros milhares de jovens também) tive minha primeira experiência com a câmera onde eu podia me fotografar do jeito que quisesse, mesmo sem ter um pingo de conhecimento técnico sobre o assunto. Mas era libertador. Nunca me esqueço da primeira câmera que tive, e se brincar ela ainda está guardada em algum lugar por aqui, eu só não sei onde.

O que quero dizer é que esse boom fotográfico que a gente viveu anos atrás serviu pra tirar da cabeça de muita gente (a começar pela minha) que a câmera é algum tipo de bicho nocivo. Já fotografei muitas pessoas que ficaram tão desconfortáveis com isso que eu achava que estava incomodando de alguma forma, que a minha presença ali não era uma coisa agradável de se ter. Mas não é culpa delas: fomos educados para considerar a aparência ao invés da essência, fomos educados para fazer fotos bonitas ao invés de fotos sinceras e espontâneas. Por isso meu coração se divide entre retratos e fotografia de rua. Amo fazer retratos, de verdade, mas quando documento o cotidiano da cidade eu me sinto muito mais livre, muito mais fiel ao amor que tenho pelo ato de fotografar.

Na universidade, quando eu vivi minhas primeiras aventuras com a fotografia experimental, eu percebi o quanto a coisa é muito mais ampla e complexa do que a gente pensa ser. Eu achava que tirar fotos era simples, era algum tipo de hobby, uma coisa legal de se fazer sabe?! Algo que não dá trabalho mas dá dinheiro. TAPA NA CARA. Vi toda a bagagem histórica por trás desse tema tão lindo. Conheci o trabalho de fotógrafos que viveram centenas de anos atrás e precisavam mover o mundo inteiro pra fazer uma única foto. E aí eu percebi que queria (E PRECISAVA) seguir a profissão que um dia tanto me incomodou.

Hoje, como fotógrafa, sinto um imenso orgulho de tudo que aprendi e me sinto cada vez mais apaixonada pelo que faço. Lógico que existem desvantagens que são comuns a qualquer profissão, mas sempre que penso nelas penso também em como eu posso melhorar e como a câmera abriu os meus horizontes. Se antes a minha visão era fechada, hoje ela se encontra aberta a muitas coisas e detalhes que eu sequer posso conter… E isso é maravilhoso. Isso é ser fotógrafo!

Imagens do post: vivianmaier.com